quarta-feira, 3 de março de 2010

Falo


Pintura digital
Titulo: Á beira-rio
Autor. José M. silva



Falo
daquele dia
em que fomos nós
nas margens do rio.
A água corria nos olhos
e as flores cresciam nas mãos…
Falo
daquela tarde
em que o Outono fervia
e as folhas nos afagavam.
Numa dança crepuscular
e nos beijos ardiam no ar
Falo
do amor
da caligrafia do teu corpo
da cumplicidade do tempo
da brancura do teu rosto
da doçura dos teus lábios…
Falo… devaneios!

José M. Silva



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Embalo nas correntes serpentinas


Pintura Digital
Titulo: Movimento Poético
Autor. José M. Silva


Embalo nas correntes serpentinas

que deslizam embriagadas

plos ventos.

Mergulho nas encostas áridas,

repletas de mistérios e enigmas nocturnos.

Sou amante da estrada, amante dos sonhos.

Sonho com corpos dançantes,

seios insinuantes e lábios carnudos.

Projecto pontes no ar e espelhos camuflados.

Vibro com mulheres encharcadas,

galopantes do sexo e enroladas em lençóis de sémen.

Vibro com combustões erécteis.

Vibro com as correntes da vida.

José M. Silva

Em livro «Há copos, garfos inebriados dentro de mim»



segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Ébria de mel



Quadro a óleo intitulado «Os amantes»
Autor: José M. Silva


Ébria de mel em mim entras

enrolada em doces espirais

e conexões sem eco.

E, no ranger desta ansiedade,

no profundo fechar de olhos

nesta noite que já esvoaça


APARECES!!!.....


Temerosa estátua de corpo desnudado

de olhar profundo e longínquo.

Estendes-me os teus frescos braços de flor

e nos teus seios repouso.


Mas na minha solidão

Permaneces ausente ausente:

do vento, do mar, das gaivotas,

dos veleiros e das rosas que dirijo.

Dos crepúsculos em olhares de boneca

dos búzios em terras santas

dos beijos que cantam nos rios…


José M. Silva


Em livro «Há copos, garfos inebriados dentro de mim»

domingo, 3 de janeiro de 2010

Viajo por todos os lugares possìveis e impossíveis.


Aguarela de Veneza autor: José M. Silva


Viajo por todos os lugares possíveis e impossíveis,

conhecidos e desconhecidos, imagináveis e inimagináveis.

Viajo pelas brumas, bebo do espumante das ondas,

mergulho nas pradarias marítimas, visito os crustáceos,

admiro as estrelas e deliro com os cavalos marinhos.


Vou ao fundo, bem ao fundo, mais fundo não há!

Avisto barcos piratas, baús e artefactos valiosos.

Regresso à superfície e, em mim, cresce um verde renovado

nas chamas que correm nas águas transparentes dos rios...

estes fluem livremente nas flores e na luz do amor.


As crianças brincam em tapetes vivos, os lagos envaidecem-nas...

pintam colinas da cor do céu, pintam árvores da cor do mar,

pintam mundos novos, com novos arco-íris e vivem as cores.

Pintam andorinhas, terras distantes e paraísos desnudados.

Crescem nas palavras indizíveis da cruel e imaculada inocência.


Viajo por todos os lugares possíveis e impossíveis,

vou ao fundo, mesmo ao fundo da minha nudez.

Presenteio a minha apaguês dispersa na volúvel simetria,

olho os astros, as constelações e moldo-me na argila

como um missing link num fosso de duplos labirintos.


José M. Silva

Em livro «Há copos, garfos inebriados dentro de mim»

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Atendam à vida para que o acto não seja morte!...



Quadro técnica mista, colagens desenhos e pintura sobre tela
Titulo: O desconcerto do mundo!... Autor: José M. Silva
Tela rejeitada no prémio; Amadeu de Sousa Cardoso.

Não! Não digam que a arte é isto, ou aquilo.
Que é por aqui! Ou por ali! Que eu sigo a minha vontade e digo.
Abaixo os demagogos de baixo custo! Os tendenciomentais!
Os arte – cráticos de sabão espumoso! Os paradoxos d´arte!

- vinte ratinhos brancos, devidamente numerados 1,2,3,4,
num alinhamento isósceles - uma corda de veludo verde
azeitona entrelaçada descrevendo um oito - um ambiente
intimista protagonizado por bonecos de esferovite…
já não há pachorra!

Desengane-se pois quem pensa que a arte é efectivamente arte.
Pois não é! A arte é um sentido laico, dado a um conjunto de seres
cinzentos, que vivem numa exasperante vontade de elevarem
as suas frustrações por não terem nascido bichos!
A arte é vida! Vida pura. E essa foi banida, aniquilada,
desarticulada, menosprezada… respira agora um
ar filtrado, um ar manipulado, um ar esfumado…

Venham! Venham! Futuristas, expressionistas, vanguardistas.
Venham sim! Venham aos potes, aos trambolhões, às cambalhotas.
Mas não confundam! Não deturpam! Não destruam!...
Sejam autênticos! Construam! Vejam o mundo com olhos novos,
( puros de preferência ).
Mas que se veja! Não se dizem criadores?!! Pois então... criem!
Não são iluminados?!! Então que esperam... iluminem… encandeiem…
façam um céu sideral! Mas atendam à vida para que o acto não seja morte!...

José M. Silva

Em livro «Há copos, garfos inebriados dentro de mim»

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Não me perguntem como pinto?


Aguarela (Areeinho) Autor: José M. Silva

Não me perguntem como pinto?
Apenas sinto! É esse o meu pintar.
Desenho, mancho, esborrato... sou por vezes insano.
Sou o meu abismo... sucedo-me, encandeio-me, sou eu em mim.
O sentimento abalroa o nascer e renascer das formas
sinto-as e paro. Deve-se sempre parar…

Não me perguntem das cores?! Misturam-se...
em tons adjacentes, inebriados... complementam-se!
São o claro e o escuro, o quente e o frio, o dia e a noite,
a vida e a morte!

Não me perguntem como pinto?
Pois quando as saudades matam, vejo todos
os mares de rosas que me iluminam.
Procuro! E quando aparece sinto e é tão bom sentir!
O momento é vida e a vida leva-nos sempre nos seus mistérios…

José M. Silva

Em livro «Há copos, garfos inebriados dentro de mim»

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Verdes anos


Aguarela autor: José M. Silva


Verdes anos

Foi a loucura
pragmática nos tempos,
das traves esquartejadas.
Fomos comuns lampiões
com ideais liberais…

Foi como se...
na ira das vontades e dos quereres,
proliferasse uma fértil omnipresença
das vinhas, dos áureos e empíricos desejos.
Cortejámos com voracidade a utópica Mais-valia.

Fomos tontos, mascarados
galopamos por montes e vales
e surfamos nas ondas!…
Saqueamos sementes voltaicas
e partículas orgânicas.
Fomos energia em constante renovação 
combatemos a neutralidade de Antíoco da Síria.
Andamos à boleia dos ventos,
da rosa, da rosa – dos – ventos,
rosa cor de mapa.
Atiçamos linces raivosos
cobrimos adultérios imundos
preenchemos toda a vastidão dos densos bosques
e pinheirais como centauros.

Num só dia, cobrimos Roma e Pavia,
fomos gafanhotos e pagãos neuróticos
navegamos em botes furados,
içamos velas quinhentistas
galgamos oceanos verdes de lés - a - lés.
Fomos forças invisíveis.
Cometas nascidos na terra,
embebidos no fogo, na água e na luz…
Na luz do meu poema.


José M. Silva

Em livro «Há copos, garfos inebriados dentro de mim»